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  • Propago Social

Uma teia que transforma

"(...) Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras (...)


Alberto Caeiro, em "XLVI - Deste modo ou daquele modo"



O trabalho voluntário, na maioria das vezes, pode ser surpreendente. Não apenas por seu impacto, muito menos pelas possíveis dificuldades no caminho, mas também porque ele carrega um potencial incrível de desenvolvimento pessoal.


Gláucia é voluntária do UNO desde 2015, quando chegou ao instituto via plataforma Atados. Ela já havia participado de outros voluntariados e buscava um novo projeto para atuar. Ao se deparar com o Instituto UNO, se interessou e se inscreveu. Depois do processo de acolhimento de novos voluntários, participou do Curso de Formação de Ecoeducadores, enfrentando logo o seu primeiro desafio: “como a colaboração em um processo educacional pode ser priorizada em detrimento à realidade competitiva em que vivemos?


A vida de Gláucia foi marcada por diversos momentos de competição, o que gerou um estranhamento inicial à metodologia apresentada no curso de formação do UNO, baseada na colaboração. Para ela, a sua realidade de testes, provas e vestibulares é que deveria ser enfatizada, mostrando a todos, como é a vida “lá fora”. Pensando em desistir, já no final do curso, foi questionada com a seguinte pergunta: "e se uma das crianças ou adolescentes com quem você for trabalhar tiver a mesma perspectiva e precisar de uma pessoa que pensa da mesma forma que você?". Foi o suficiente para ela continuar.


Glaucia, em um dos cursos de formação dos Ecoeducadores

Quando o trabalho voluntário começou, seu pensamento era de que o relacionamento com as crianças e adolescentes seria o seu segundo desafio. Instáveis e rebeldes eram as palavras que vinham na sua cabeça. Era o que as pessoas diziam. Mas foi neste início que ela teve que entender que, para a aprendizagem acontecer, seria necessário estabelecer um vínculo de confiança e afeto entre os envolvidos no processo: ela, ecoeducadora, e as crianças que faziam parte do grupo.


Ainda que com as dificuldades e com sua visão oposta à da metodologia do UNO, Gláucia propunha atividades de acordo com o escopo de trabalho do instituto e, com o tempo, ela percebeu uma mudança no comportamento das crianças, de competição para colaboração. Cada uma delas passou a ajudar a outra naquilo que tinha mais facilidade, e elas começaram a ser mais organizadas, tanto na escrita em papel, como na ordem e sequência das atividades, por meio de simples ações, como uma lista de tarefas. Aos poucos, percebeu que eles estavam mais concentrados nas atividades e dispostos a superar suas defasagens, inclusive escrevendo mais.




Criação de maquetes e manual de instruções desenvolvidos pelos participantes do "Quero Saber..."


Pouco a pouco, o trabalho voluntário e aquelas crianças e adolescentes foram mostrando à Gláucia que não era importante saber quem terminou a atividade primeiro, muito menos quem ganhou o jogo - era mais legal quando todo mundo ganhava -, e que a colaboração entre atividades é mais prazerosa que a competição.


Ela conta que, neste ponto, ficou clara a transformação pela qual estava passando, e que, mais que ensinar algo às crianças e adolescentes, ela estava aprendendo sobre si mesma. Sua perspectiva mudou e ela passou a entender que para obter sucesso no que você faz não há apenas um único caminho para ser percorrido. O que é sucesso para ela, pode não ser para outra pessoa. O melhor para ela, pode não ser o melhor do outro. Ela aprendeu o conceito de pontos de vista e a prática da empatia.


Hoje em dia, ela não atua mais diretamente com as crianças/adolescentes, mas desenvolve o projeto "Quero Saber... em Ação". Contemplando o pilar da Ecopedagoria, Gláucia cria atividades pedagógicas a partir de materiais recicláveis, que se encontram facilmente. Além de ser uma proposta lúdica e educativa, ela ressalta que quando essas atividades são construídas junto com as crianças/adolescentes todos se tornam aprendizes. O que é muito favorável para que percebam que os adultos também são passíveis a erros. Com isso, a tendência é que as crianças/adolescentes ganhem coragem de arriscar mais, pois passam a compreender que o "erro" faz parte do processo de aprendizagem. Fora isso, colabora ainda mais para a construção de vínculos de confiança, o que é fundamental para que os ecoeducadores voluntários se aproximem das crianças/adolescentes.


Completando 8 anos de atuação voluntária, Gláucia também faz parte da equipe pedagógica da organização e, além de outros projetos, participa dos Cursos de Formação, compartilhando sua vivência, descobertas e desafios com os novos ecoeducadores que integrarão o grupo.


Gláucia conclui que todo trabalho voluntário requer um esforço para sair de sua realidade para entrar na do outro, o que exige uma isenção de julgamentos, difícil para nós, seres humanos. Mas ela afirma que sair de sua bolha é desafiador e provoca uma grande reflexão. Se toda mudança começa de dentro pra fora, Gláucia pôde encontrar no UNO a experiência que buscava para potencializar seu próprio movimento de transformação


É por acreditar nesse processo de despir-se para recobrir-se de novos saberes, que o UNO desenvolve seu trabalho com voluntários. Não se trata de fazer apenas pelo outro, mas, também, por si, porque somos todos parte de uma grande teia, que nos torna UNO.






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